Mostar

– Meu, ficou maluca? O que você vai fazer na Bósnia?

Resposta padrão de todos meus amigos quando eu dizia que queria ir pra Bósnia nessa viagem. Quando se fala “Bósnia”, provavelmente vem à memória da maioria das pessoas a triste guerra, o cerco de Sarajevo que passava na TV o tempo inteiro e as minas terrestres que ainda estão espalhadas pelo país. Mas não tinha jeito: quanto mais eu lia sobre o país, mais vontade eu tinha de ir pra lá. Como seria um país que passou por uma guerra tão recente? Como seria o povo? Obviamente não foi o país mais bonito que eu conheci, mas o que eu vi lá e o jeito das pessoas me marcou de uma forma que tomei a passagem pela Bósnia como uma lição de vida. No decorrer dos posts vou contar o porquê.

De Dubrovnik a Mostar

Em Mostar há uma estação de trem, mas em Dubrovnik não, então fui de ônibus. Diariamente saem uns 3 ou 4 ônibus de Dubrovnik a Mostar. O percurso dura mais ou menos de 3 a 4 horas. A estrada vai passando por lugares muito bonitos, bonitos e a partir daí,  pouco a pouco você começa a enxergar as marcas de uma das guerras civis mais sangrentas da história. Casas abandonadas no meio da estrada, com muitas marcas de tiro, algumas totalmente destruídas, acredito que por causa de algum míssil ou granada. É a preparação para o que vem pela frente em Mostar.

Mostar

Em Mostar

Os conflitos entre os países da antiga Iugoslávia foram tantos que é até difícil explicar de forma individual. Na Bósnia há três etinias e religiões dominantes:  bósnios sérvios (cristãos ortodoxos), bósnios croatas (católicos romanos) e bosníacos (ou bósnios muçulmanos) – como podemos ver, são os motivos de sempre para fazer guerra. Após a declaração de independência da Bósnia e Herzegovina, Mostar a princípio foi atacada pelo exército Iugoslavo (JNA). O então Conselho de Defesa da Croácia (formado pela etnia bósnio croata) e o Exército da República da Bósnia e Herzegovina  (bosníacos) uniram forças para expulsar o JNA de Mostar, e pouco após conseguir, o Conselho de Defesa da Croácia cercou e atacou a cidade entre 1992-1993. O cerco só acabou quando o Exército da República da Bósnia fez uma operação para conseguir tomar o poder novamente e acabar com o cerco. Podemos dizer que foi uma guerra entre croatas e muçulmanos.

Mostar é uma cidade histórica bem pequena e sem muitos recursos. Desta forma, mesmo tantos anos depois, eles não conseguiram reconstruir muita coisa. Se eu senti um soco no estômago vendo as esparsas casas destruídas à beira da estrada, meus olhos encheram de lágrimas quando o ônibus entrou na avenida principal. É muito diferente você ver uma foto aqui, outra ali enquanto lê a história e VER o conjunto todo com seus próprios olhos. É como se você conseguisse sentir um pouco do terror que as pessoas passaram ali. Marcas de bala para todos os lados e muitos edifícios completamente em ruínas, abandonados. À noite deve ser quase uma cidade fantasma.

Banheiro da estação em Mostar

A estrutura da cidade é meio precária. No guia que eu comprei diz que só há duas estações de ônibus, dois correios e dois corpos de bombeiros – um Croata e um Bosniak. A estação de trem fica ao lado da estação de ônibus. Para sentir a precariedade do lugar, basta ver o banheiro da principal estação de ônibus: a placa do banheiro feminino lembra uma mulher nos anos 80. Precisa pagar para usar o banheiro, e quando você entra, uma bela surpresa. Pelo menos tem wi-fi grátis na estação =)

Eu não sei como é a relação entre as pessoas dessas etnias na cidade, mas posso garantir que precisei de ajuda para chegar na Old Town de Mostar e as pessoas foram muito simpáticas e prestativas, apesar de muitos falarem só um pouco de inglês. Os que não falavam, eu dizia “Stari Grad” (cidade antiga) ou “Stari Most” (ponte antiga) e eles não só me apontavam a direção (uma senhora até desenhou o trajeto num pedaço de papel!) como só faltaram sair pra me levar até lá.

Curiosidade: o “ali” dos bósnios é igual o “ali” do mineiro: pelo que eles falam parece que é perto mas a distância é bem grande. Aconteceu comigo tanto em Mostar como Sarajevo. Em Mostar eu fiz tudo a pé mesmo, mas em Sarajevo, se você estiver cansado e não quiser andar, seja específico: peça a informação onde você pega o tram para ir para seu destino.

A princípio pode ser assustador andar por Mostar por causa de toda aquela destruição aparente, mas não tenha medo: não vi nenhuma pessoa suspeita na rua. Há poucos mendigos na cidade, mas a maioria pede em silêncio.

Mostar

Ruínas em Mostar

Marcas da Guerra

Muitas marcas

ONDE IR

OLD TOWN (STARI GRAD)

Deixei minha mochila no “Garderoba” – o guarda-volumes da rodoviária, peguei alguns marcos bósnios no ATM (mas lá eles aceitam euros e kunas também) e fui caminhar pela cidade antes de pegar um ônibus para Sarajevo. Fui seguindo o caminho que as pessoas me indicaram até chegar na Old Town de Mostar, que mostra bem a herança do Império Otomano na Bósnia. O comércio é bem intenso lá e as coisas são baratas. Andei bastante, fiz compras, escorreguei nas lisas pedras da Old Town, passei por algumas mesquitas, mas a minha surpresa maior foi chegar perto do rio Neretva. Acho que foi o rio mais lindo que eu já vi. A valsa “Danúbio Azul” (que de azul não tinha nada) deveria se chamar “Neretva Azul”, certeza! Com o calor, muita gente estava tomando banho no rio.

Rua da Old Town

OLD BRIDGE (STARI MOST)

A Stari Most (Ponte Velha) é o símbolo de Mostar. Ela foi finalizada no século XVI e inclusive havia sobrevivido à ocupação italiana na Segunda Guerra Mundial, mas não sobreviveu aos ataques dos bósnios croatas em 1993. Após o término da guerra, fizeram uma réplica da ponte original e ela inaugurou em 2004.

Old Bridge – Stari Most

MUSLIBEGOVIC HOUSE

Este hotel / museu conta um pouco da história do período do Império Otomano.

Site Oficial: http://www.muslibegovichouse.com/

MUSEUM OF HERZEGOVINA

Exposições e mostras históricas sobre Mostar e a Herzegovina. Conta com milhares de documentos, objetos e achados arqueológicos em sua exposição permanente.

Site Oficial: http://www.muzejhercegovine.com/

MESQUITAS

Para quem nunca teve a oportunidade de ver uma:

  • Karadozbeg Mosque
  • Koski Mehmed Pasa Mosque
  • Roznamedzi Ibrahimefendi Mosque

RUÍNAS

Você vai encontrar ruínas em toda a parte, mas as duas mais visitadas são: as ruínas da Igreja Ortodoxa e as ruínas do Ljubljanska Banka Tower.

Uma galeria de fotos de Mostar: http://www.pbase.com/alangrant/mostar

POR QUE IR A MOSTAR:

Um passeio por Mostar é uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo que você vê pura história e uma bela natureza, você vê as marcas da guerra de uma maneira muito profunda. Nesse momento que você se sente mal porque às vezes tem tudo, nunca passou por uma situação tão bizarramente horrível mas vira e mexe reclama por pouco, se amargura por menos ainda. Apesar das cicatrizes ainda não fechadas de uma guerra recente e de ainda existir uma barreira étnica no país as pessoas tratam quem vem de fora bem, não são revoltadas. Ir à Mostar ou outro lugar da Bósnia pode sim trazer uma lição que faz você refletir e melhorar. Fui aprender um pouco mais da força desse povo em Sarajevo. Conto tudo no próximo post.

Rio Neretva

Beleza natural de Mostar