Sarajevo: o cerco narrado por uma sobrevivente

Com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, o antigo Reino da Iugoslávia voltou trocando de nome algumas vezes até se tornar a República Socialista Federal da Iugoslávia. Josip Broz Tito começou como primeiro-ministro e durante a década de 50 foi eleito presidente. Acreditando que mantinha a união dos diversos povos da Iugoslávia, formada por Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Sérvia e Montenegro mais as regiões autônomas de Kosovo e Voivodina, ele governou até sua morte em 1980. Durante todo esse tempo como presidente não preparou um sucessor, e alguns anos após sua morte, a Iugoslávia começou a se desintegrar. Pouco a pouco os países começaram a proclamar independência, arruinando o sonho dos sérvios – a “Grande Sérvia”. O exército da Iugoslávia, formado principalmente por sérvios, se tornou praticamente o exército da Sérvia. Aqui os conflitos nos Bálcãs recomeçam. Com esse resumo da história em mente, vou contar o que ouvi sobre o cerco de Sarajevo de acordo com o relato de uma sobrevivente.

Times of Misfortune Tour

Em 1992 minha maior preocupação talvez fosse não perder a programação da TV cultura, enquanto começavam os conflitos dentro da Bósnia e mais especificamente o cerco a Sarajevo. Antes de viajar para lá, li muito a respeito do cerco, mas obviamente ouvir uma pessoa falando como foi ter passado tudo aquilo tem um efeito muito maior. A Insider Sarajevo oferece esse tour chamado “Times of Misfortune” que custa €27 e tem exatamente o objetivo de levar você aos lugares mais afetados pela guerra, contando todo o contexto histórico que levou a estes anos trágicos na história do país e como era o dia a dia de quem morava na cidade. O guia com certeza vai contar suas próprias experiências durante este período. Se você pretende fazer esse tour algum dia quando for a Sarajevo mas se considera muito sensível a cenas de guerra, não assista o vídeo no final. Para saber mais sobre alguns pontos históricos veja o post de Sarajevo, onde explico o que aconteceu em cada um deles.

E o tour começa…

Depois de contar um pouco do que eu escrevi na introdução sobre a queda da Iugoslávia, a própria guia já foi avisando que o povo de cada país da região tem uma fama, e que a dos Bósnios é de “idiotas”. O exército sérvio já havia atacado a Croácia, que já estava preparada para um possível ataque ao declarar independência e também a Eslovênia, que não sofreu tanto por ter poucos sérvios em seu território (foram 10 dias de guerra). Por outro lado a Bósnia, mesmo ciente disso, se declarou independente sem pensar na consequência de uma guerra, sem nenhum preparo para um ataque e acabou nesta situação.

Mapa que mostra o cerco de Sarajevo

 

Passamos pelo centro da cidade e subimos até o White Fortress de onde temos uma vista panorâmica de Sarajevo. De lá podemos ver o motivo pelo qual foi tão simples fazer o cerco: há montanhas em volta de toda a cidade. Os sérvios dominaram o único rio que passa pela cidade e se posicionaram estrategicamente nestas montanhas. Muito fácil de mirar e bombardear qualquer lugar:

  • A Biblioteca Nacional, que foi quase totalmente destruída e perdeu milhares de documentos históricos;
  • O Complexo Olímpico construído para os jogos olímpicos de inverno de 1984, que era motivo de orgulho da cidade;
  • A maternidade de Sarajevo, o que revoltou muito a população, já que nem os nazistas chegaram a atacar hospitais durante a Segunda Guerra Mundial. Esta maternidade só reabriu 18 anos depois;
  • A Cervejaria: há um lago subterrâneo na cervejaria e ela virou alvo de bombas e snipers por ser o único lugar da cidade com água potável. Pessoas morreram com tiros de snipers tentando chegar no local. A maioria da população só tinha água de ajuda humanitária, da chuva ou da neve derretida;
  • Os prédios de rádio, televisão e jornal;
  • Filas da ajuda humanitária: um dos primeiros massacres ocorridos em Sarajevo foi em um mercado onde as pessoas faziam filas para pegar pão da ajuda humanitária;
  • Velórios. Acredite se quiser, nem os velórios escapavam dos bombardeios. Tantas pessoas morreram em velórios que eles passaram a ser feitos em secreto à noite, quando a visão de quem atacava diminuía consideravelmente.

Sarajevo, cercada de montanhas

Nesta vista panorâmica percebemos o tanto de cemitérios que há na cidade. As mortes durante o cerco eram tantas que foi necessário transformar um estádio em cemitério de maneira provisória. Era tão certo que mais pessoas iriam morrer que as covas já ficavam abertas apenas esperando mais corpos serem enterrados. É claro que nem todas as mortes eram causadas por tiros ou bombas. Sem água, sem energia elétrica, sem comida, pessoas morreram de fome e frio. O inverno em Sarajevo é bem rigoroso, com temperaturas muito abaixo de zero. Na necessidade de aquecimento, praticamente todas as árvores da cidade foram arrancadas. Também queimavam sapatos, roupas, e até o assoalho arrancado do chão da casa para se aquecer.

O ponto de vista das pessoas lá sobre a UN (United Nations, ONU) é muito clara: United for Nothing (ou em português: Unidos para Nada). Eles acreditam que a intervenção foi pequena simplesmente porque o país não tem nada a oferecer. A ONU levou toneladas de medicação e comida para Sarajevo na época do cerco, mas segundo a guia contou, boa parte da medicação era desnecessária, por exemplo para febre amarela. A comida então pra mim foi uma das coisas mais absurdas: haviam sobras de enlatados que eram da ajuda humanitária enviada ao Vietnã (sim, comida fabricada nos anos 70!!!), mas mesmo assim as mulheres em Sarajevo faziam o possível para preparar a comida.

Em um dos quadros da exposição, há a seguinte informação: “Na primavera de 1993, todos as partes verdes da cidade incluindo parques foram fechados para que legumes fossem plantados. Isso facilitou a sobrevivência dos cidadãos. A sobrevivência dependia primeiro da ajuda humanitária. Em 1992 um sistema de ajuda humanitária foi estabelecido, funcionando com paradas ocasionais até o fim da guerra. A abertura das cozinhas nacionais, da Cruz Vermelha e outras instituições de caridade garantiram pelo menos uma refeição por dia para a maior parte das pessoas. Mesmo em tempos difíceis, as mulheres de Sarajevo aprimoraram a habilidade de sobrevivência. Elas podiam fazer uma torta com nada, maionese sem ovos, bolos sem açúcar, bifes sem carne e legumes. Parecia impossível, mas funcionou. Não há muitos daqueles que, depois de experimentar uma dessas especialidades durante a guerra, percebam a diferença para as comidas de verdade. Talvez realmente fosse como as de verdade, ou era apenas uma das maneiras de escapar da cruel realidade.”

A avenida principal da cidade se tornou o “Sniper Alley”. Muitos atiradores se posicionaram em cima dos prédios, não só os que ficavam nesta avenida principal, e sair andando pela cidade era arriscado. Era preciso esperar o momento certo para sair correndo, de preferência no meio da neblina. A crueldade dos atiradores era tanta que quando eles viam as pessoas passando, eles começavam atirando nos pés, depois nos joelhos só para a pessoa sentir dor antes de morrer.

Em 1992, a população da então sitiada Sarajevo era de aproximadamente 361.000. Nos 1425 dias de cerco os cidadãos de Sarajevo foram expostos à uma pesada artilharia, tiros de snipers e todos os tipos de agressão à pessoas inocentes. Eles consideram o cerco como o “maior campo de concentração na história”, onde cada pessoa era um alvo. Todos os dias, uma média de 329 granadas caiam e explodiam em Sarajevo, com um recorde de 3777 em 22 de Julho de 1993.

Mesmo sem eletricidade, gás, comida, medicamentos e ataques diários, eles se esforçavam em seguir com uma “vida normal”. As pessoas passavam a maior parte do tempo em porões e abrigos e ainda assim haviam concertos e outros eventos culturais. A Biblioteca da cidade teve mais leitores em 1993, apesar de muitos livros terem sido destruídos com bombardeios. Aulas eram feitas em salas improvisadas, porões e outros lugares fora do alcance dos atiradores de elite. Devido à falta de energia elétrica, eles passavam muito tempo em ambientes totalmente escuros com luz improvisada: eles mesmos faziam lâmpadas, velas e lanternas. Com a luz que conseguiam, pessoas liam, crianças desenhavam, faziam piadas e riam. No vídeo que assisti na Insider, ver os professores brincando com as crianças dentro do abrigo foi uma cena que me tocou muito, porque sorrir diante de uma situação tão calamitosa é para pessoas fortes. E pensar que às vezes ficamos mal por situações tão pequenas. Como nós reagiríamos vivendo assim? Será que teríamos o mesmo sorriso?

Passando pelo Túnel

Tunnel Tour

O “Times of Misfortune Tour” termina com a visita ao “Tunnel” ou “Túnel da Vida”.

Pouco mais de um ano depois do cerco, a população de Sarajevo estava passando fome e morrendo. Não havia como sair da cidade. Em 1993, numa tentativa desesperada, os engenheiros bósnios Nedzad Brankovic e Fadil Sero planejaram escavar um túnel embaixo do aeroporto. O túnel seria feito na casa da família Kolar em Butmir – uma comunidade de Sarajevo que ficava pouco além das linhas sérvias e próxima ao aeroporto. A família Kolar aceitou a proposta e o túnel começou a ser escavado em seu porão de maneira manual, pois não haviam muitas ferramentas para fazer esta construção.

Muitos problemas surgiram: o que fazer com a terra escavada sem levantar suspeitas, o que fazer com a água que enchia o túnel, como trazer os materiais necessários para fazer a estrutura, sem contar os bombardeios que interrompiam o trabalho. Depois de um tempo com o projeto parado, o presidente interveio e o exército bósnio começou a trabalhar no túnel 24 horas por dia em turnos de 8 horas. Os trabalhadores eram pagos com cigarros (os cigarros eram como moeda de troca durante a guerra).

Casa da Família Kolar, que virou o Tunnel Museum

Aproximadamente quatro meses depois, o túnel de quase 800m de extensão, 1,20m de largura e 1,60m de altura foi finalizado. Mais de 2 mil metros cúbicos de terra foram removidos e 170 metros cúbicos de madeira e 45 toneladas de metal foram usados para a estrutura. A entrada no túnel era controlada, mas chegou a levar 100 pessoas por viagem. Com tudo isso de pessoas, eles levavam aproximadamente 2 horas para percorrer os quase 800m. No Tunnel Museum você consegue percorrer 20m do túnel original. Eu já fiquei aflita de andar esses 20m num lugar tão fechado e escuro, imagina ficar duas horas com 100 pessoas lá dentro! Mas esse sacrifício era necessário.

Passei pelo Túnel o/

 

E foi assim que o túnel trouxe munição para o exército, remédios e comida para a população de Sarajevo, e também a maneira que muitos encontraram para fugir da cidade. As mochilas de suprimentos chegavam a pesar 50kg e eram carregadas muitas vezes por mulheres e até crianças. A nossa guia disse que quando era criança teve que carregar uma mochila daquelas. Tem uma no museu, eu tentei levantar e não consegui. A única explicação que eu encontro para isso é instinto de sobrevivência! Hoje, o túnel lembra a história de uma população que fez o que podia para continuar viva, e até mesmo com certa “alegria” em meio à uma situação calamitosa. Vale a pena a visita!

Mochila de suprimentos que chegava a pesar 50kg

Como é hoje…

Após o Acordo de Dayton, há a Federação da Bósnia e Herzegovina e República Srpska. Sarajevo é como se fosse a capital da Bósnia e Herzegovina e Banja Luka como se fosse a capital da República Srpska. Dentro das duas entidades, há 10 distritos praticamente divididos de acordo com as etnias, sendo que cada etnia tem um presidente e eles revezam o mandato a cada 8 meses, pelo que eu me lembro.

Como a Bósnia está dividida hoje. Créditos: página da Insider no Facebook

Em 2012, completaram-se 20 anos do início do cerco e como homenagem a todas as pessoas que morreram, foram colocadas 11.541 cadeiras vazias em uma avenida e realizado um concerto como homenagem às pessoas que morreram, sendo as cadeiras pequenas representando crianças. “Adivinha de quem eles compraram todas essas cadeiras? Dos sérvios”, disse a nossa guia, reafirmando a imagem de “idiotas” dos bósnios.

O que aconteceu em Sarajevo foi só uma parte do que houve por todo o país, onde aconteceram muitas coisas horríveis e mais de 100.000 pessoas morreram e mais de 2 milhões tiveram que deixar suas casas.

Apesar de um sofrimento recente, das divisões ainda visíveis e de um país sem recursos, o povo é muito simples, simpático, curioso e prestativo. O sorriso que eles tem no rosto hoje eu considero como uma lição de resistência e superação. Visite Sarajevo e descubra um pouco mais por você mesmo.

No próximo post: Ljubljana!